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Capa de Não Fale com Paredes Módulo 1000, memórias em Frequência - Uma conversa com Luiz Paulo Simas

Edição Nº 1

Não Fale com Paredes Módulo 1000, memórias em Frequência - Uma conversa com Luiz Paulo Simas

15 de agosto de 2026

Por Patrícia Marcondes de Barros

"Espelho...

Eu quero ver o outro lado da realidade.

Espelho...

Tenho certeza do que está me mostrando?

Espelho...

Quero entrar dentro de você.

Espelho...

Preciso sair deste lado.

Preciso mudar de lugar."

Espelho, Módulo 1000

É significativo que a primeira entrevista publicada pelo Arquivo dos Instantes, seja com Luiz Paulo Simas, integrante do Módulo 1000. Afinal, é justamente inspirada pelo álbum “Não Fale com Paredes”(1972) que nasce o título desta série, uma homenagem ao rock nacional.

O Módulo 1000 surgiu no final dos anos 1960, em um momento de intensa experimentação musical e cultural no Brasil. A banda incorporou à sua música elementos do rock progressivo e psicodélico, construindo uma sonoridade pouco convencional para a época. Seu som se desenvolveu em meio às mudanças de comportamento, às novas experiências estéticas e à efervescência cultural que marcou parte da juventude brasileira.

Módulo 1000, Não Fale com Paredes, 1972. Top Tape. Capa de Wander Borges. Arquivo pessoal.

Nesse cenário, o Não Fale com Paredes” tornou-se uma das referências do grupo. A própria expressão sugere uma situação que pode ser lida de diferentes maneiras: falar e não ser ouvido, insistir quando o silêncio parece dominar, procurar diálogo onde talvez exista apenas o vazio. É uma imagem que permanece provocadora e que, décadas depois, continua dando sentido a uma conversa sobre memória e cultura relacionada aos tempos de ditadura militar.

Luiz Paulo Simas, integrante do Módulo 1000, faz parte de uma geração de músicos que, entre o final dos anos 1960 e o início dos anos 1970, ajudou a ampliar as fronteiras do rock nacional e a construir uma cena marcada pela experimentação. Quando pensamos na música brasileira desse período, é comum que as narrativas se concentrem na música de protesto, nos grandes festivais e no Tropicalismo. Entre eles, porém, existiu horizonte de possibilidades sonoras que nem sempre aparece com a mesma força nas histórias mais conhecidas da música brasileira. Havia músicos interessados em explorar outros caminhos, incorporando referências do rock, da psicodelia, do blues, do jazz e da música erudita, experimentando timbres, estruturas, texturas e atmosferas que escapavam aos formatos convencionais da canção.

É nesse território de invenção que podemos situar a experiência do Módulo 1000. Mais do que simplesmente reproduzir modelos estrangeiros, a banda participou de um momento em que o rock brasileiro começava a descobrir diferentes possibilidades de linguagem. A longa duração, a improvisação, a sonoridade psicodélica, o peso dos instrumentos e a construção de ambientes sonoros tornavam-se recursos para uma música que não precisava se limitar às formas tradicionais. Nesse processo, surgiam experiências que revelavam uma cena muito mais diversa do que aquela apresentada pelas narrativas centradas apenas nos movimentos de maior projeção. O Módulo 1000 ocupou justamente esse espaço de liberdade criativa, contribuindo para a construção de uma vertente experimental do rock brasileiro.

Conversar com Luiz Paulo Simas é aproximar o presente dessa memória e, por meio de sua experiência, compreender não apenas como o Módulo 1000 construiu sua linguagem, mas também como era viver e criar dentro daquela cena.

A entrevista é breve, um instante, suficientes para despertar uma lembrança, recuperar uma música ou lançar uma nova pergunta sobre o passado.

Revista Rolling Stone, 21 de março de 1972. Arquivo pessoal

Patrícia - Luiz, no final dos anos 1960 o Rio de Janeiro vivia uma intensa transformação em sua cena musical, com a emergência de novas bandas, espaços de apresentação e formas de circulação do rock. Quais eram os circuitos e as referências que alimentavam aquela cena, e como se deu o encontro entre você, Daniel, Eduardo e Candinho?

Luiz Paulo Simas - Na realidade, eu primeiramente fui chamado pelo pessoal de um grupo de baile porque eles tinham conseguido um contrato que exigia que o grupo tivesse um organista. O contrato era para tocar numa nova boate em São Paulo (“Katraka”). Eu aceitei, era minha chance de largar a faculdade de Arquitetura (estava no meio do segundo ano) e me dedicar só à música. Saí da casa dos meus pais e fui morar com o grupo em São Paulo, que já tinha então o nome de Módulo 1000. O grupo era ainda um sexteto com um vibrafonista (o líder do grupo) e uma cantora. Tocávamos sucessos pop estrangeiros, e algumas músicas de MPB. Depois o grupo se tornou um quarteto, sem o vibrafonista e sem a cantora. Nosso repertório se voltou mais para rock do tipo Jimy Hendrix, Steppenwolf, Deep Purple, etc. Ficamos em São Paulo e Santos (Praia Grande) tocando em bailes por dois anos. Com o tempo, eu que vinha da música clássica e da bossa-nova, senti muita necessidade de compor músicas próprias em português, e trouxe essa ideia para o grupo. Depois voltamos para o Rio.
No Rio, como você disse, a cena musical era bem efervescente, com muitas bandas tocando músicas autorais (Equipe Mercado, o Peso, a Bolha, o Terço e muitas outras). Um dos principais centros de apresentação dessas bandas era o Instituto Villa-Lobos, no Flamengo. Também nos apresentamos num evento especial no centro do Rio chamado “Aberto Para Obras”, junto com o Terço e a Charanga.

Patrícia - Luiz, o Módulo 1000 surgiu em um período de forte tensão política, mas também de intensa experimentação artística. Olhando hoje para aquelas músicas, chama a atenção a mistura de linguagens e a disposição para romper com formatos mais convencionais do rock e da canção. Em que medida o próprio ambiente em que vocês viviam, com seus limites, interditos e contradições acabava influenciando, mesmo que indiretamente, aquilo que vocês criavam e apresentavam no palco?

Luiz Paulo Simas - Nossa índole nunca foi a de conceituar primeiro; as obras surgiam de um impulso essencialmente intuitivo. Por isso, o ambiente e o período influenciaram muito nas nossas criações. Nossas letras eram minimalistas, com uma ou duas frases apenas. Nosso interesse era fazer algo novo, com ideias originais. Não éramos politicamente engajados, mas vivíamos na época da ditadura, com todos os seus limites, e estávamos sempre atentos ao perigo da ordem vigente.

Patrícia - O Módulo 1000 seguiu uma trajetória bastante particular, aproximando-se do rock experimental, da psicodelia e de diferentes linguagens artísticas. Algumas composições, porém, enfrentaram problemas com a censura, como “Curtíssima” e “Ferrugem e Fuligem”. Como essas interferências afetaram vocês e a maneira de criar e apresentar as músicas?

Luiz Paulo Simas - Para sobreviver artisticamente naquela época, era preciso cuidar de fazer letras com que a censura não implicasse, ou por serem completamente apolíticas ou por usarem metáforas que tivessem um sentido suficientemente obscuro para poder escapar da censura. Não me lembro qual foi o problema que a censura achou com “Ferrugem e Fuligem”, mas no caso de “Curtíssima”, eles devem ter achado que “eu quero ver as imagens” tinha necessariamente a ver com o uso de drogas. Era impossível ter certeza se uma letra ia ser censurada ou não.

Patrícia - Em 1971, o Módulo 1000 gravou Não Fale com Paredes, reunindo influências do hard rock, da psicodelia e do progressivo em uma sonoridade muito própria, marcada por peso, experimentação e liberdade formal. Como essa identidade sonora foi construída nos ensaios, nas composições e na interação entre os quatro músicos?
Luiz Paulo Simas- O nosso empresário Marinaldo Guimarães e o disc-jóquei Ademir Lemos convenceram a Top Tape a lançar o “Não Fale com Paredes”. Quando o dono da Top Tape ouviu a gravação, detestou e achou que era uma ideia louca, mas não tinha mais como voltar atrás. Chegamos a essa sonoridade de uma forma muito intuitiva. Como eu disse antes, nós não éramos dados a elaborar conceitos antes de fazer nossas músicas. Vinha tudo do que nós ouvíamos e vivíamos na época, com uma vontade de criar algo novo. Nós não chamávamos nossa música de hard rock, nem de psicodélicas, nem de progressivas. Talvez de música experimental, não me lembro bem. Daniel (guitarra e canto) e eu (teclados e canto) normalmente iniciávamos as idéias das músicas, apoiados na bateria muito original do Candinho e no baixo forte do Eduardo. Todos contribuíam para a forma final das músicas.

Patrícia - Algumas faixas parecem permitir diferentes leituras sobre aquele momento histórico. “Olho por Olho, Dente por Dente”, por exemplo, pode ser ouvida a partir de uma dimensão mais diretamente relacionada às tensões sociais e políticas da época, enquanto “Turpe Est Sine Crine Caput” trabalha com uma linguagem mais metafórica, incluindo a referência aos cabelos, elemento que assumia forte dimensão identitária dentro da contracultura. Como vocês pensavam essas imagens e símbolos?

Luiz Paulo Simas Quanto a “Olho por Olho, Dente por Dente”, eu provavelmente abri um dicionário de ditados, me lembrei daquela frase e resolvi fazer uma música. Eu não pretendia que tivesse relação com as tensões sociais e políticas da época, mas quem sabe, pode ser que tenha sido uma coisa subconsciente. Em relação a “Turpe Est Sine Crine Caput”, sim, eu quis mesmo fazer uma referência bem-humorada ao fato da sociedade da época ser contra nós, os “cabeludos”, já que aquela frase se traduz do latim como “É horrível uma cabeça sem cabelos”.

Patrícia - Sua trajetória posterior também revela uma permanente disposição para experimentar e atravessar fronteiras entre linguagens. Compositor, cantor e pianista de música popular brasileira, você foi o primeiro músico do Rio de Janeiro a utilizar um sintetizador sonoro em suas apresentações e participou de diferentes experiências musicais, entre elas no rock com o Vímana e com artistas de outros gêneros musicais. Olhando para esse percurso, existe um fio de continuidade que liga o jovem músico do Módulo 1000 ao artista que você se tornou? O que aquela experiência deixou na sua maneira de pensar o som, a criação e as possibilidades de diálogo entre música, tecnologia e outras linguagens artísticas?

Luiz Paulo Simas - Tudo que eu faço é influenciado pelo que eu fiz antes, seja bossa, samba, o rock nas suas diversas formas. No meu album “Cafuné” isso é evidente em muitas das músicas. As faixas “A Chama” e “Normal”, por exemplo, mostram isso muito claramente, não são nem samba nem rock, e têm uma forma muito livre e pode-se dizer, “experimental”. Desde que eu me mudei para os Estados Unidos passei a me dedicar mais a tocar piano acústico em vez de teclados, mas nunca abandonei a tecnologia. Eu gravo com teclados frequentemente, e muitas das minhas gravações têm uma mistura de teclados e piano acústico. Atualmente tenho feito muitas gravações a partir do meu estúdio em que os músicos estão em outras cidades ou mesmo em outros países. Não são gravações feitas ao mesmo tempo, pois a tecnologia atual ainda não permite isso, mas como são feitas com cuidado, precisão e inspiração, o resultado é sempre muito bom. Quanto ao uso de Inteligência Artificial, há muito abuso de IA na criação de músicas ruins e irrelevantes, com o único intuito de substituir músicos verdadeiros. Eu sei que IA pode ser usado de uma forma criativa, como qualquer tecnologia. Estou começando a experimentar com isso, mas com muito cuidado.

Patrícia - Mais de cinco décadas depois, o LP Não Fale com Paredes deixou de ser apenas um registro de uma experiência musical dos anos 1970 e passou a ocupar um lugar particular na memória do rock brasileiro, sendo redescoberto por pesquisadores, músicos e novas gerações. Olhando criticamente para essa trajetória, o que você acredita que o Módulo 1000 antecipou ou rompeu em relação ao que se fazia naquele momento e o que talvez tenha ficado incompreendido naquela época?

Luiz Paulo Simas - Sinceramente, depois que o Módulo 1000 acabou e eu entrei para o Vimana, passei a me desinteressar pela música do Módulo. Isso porque com minha formação de música clássica, bossa-nova e MPB, o rock progressivo do Vimana me atraia muito mais, com suas melodias e harmonias inventivas e variadas. Mas hoje em dia, eu reconheço que o que o Módulo fazia era mesmo muito audacioso e inusitado. Não havia outra banda na época que fizesse algo semelhante, e desenvolvi uma nova admiração pela música do grupo.

Patrícia - Em que direção está caminhando hoje o artista Luiz Paulo Simas? Quais são seus projetos atuais?

Luiz Paulo Simas - Tenho me concentrado mais em compor do que me apresentar ao vivo. Eu moro agora em Beacon, a mais ou menos uma hora e meia de Nova York. Marcar shows é sempre uma tarefa muito árdua e ingrata, e os clubes pagam muito pouco, sempre dependentes do artista para trazer público. A partir da época da pandemia eu passei a fazer poucos shows, e só em lugares muito bons. Em setembro vou ao Brasil e tenho um show marcado no dia 24 no clube Manouche, no Rio. Em termos de composições, tenho feito e gravado instrumentais de que eu gosto muito, como “Out of the Blue” e “Out of the Red”, com uma mistura de músicos reais e instrumentos virtuais. Também compus e gravei uma música nova chamada “Canção dos Povos Originários” para a qual foi feito um video muito incrível pelo designer Leon Vilhena. Está no meu canal de YouTube, “Luiz Simas Music”. Recentemente tive a honra de fazer duas músicas em parceria com o legendário Roberto Menescal, “É Bom Sonhar” e “Simpatia Total” - esta última com letra do grande Márcio Guedes. Sem esquecer que componho também músicas para piano solo, como “Greenway Trail”. Estou sempre ocupado com criações variadas, espero poder continuar assim!

Aqui, alguns trabalhos de Luiz Paulo Simas:

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