Edição Nº 2
"Não fale com paredes" - Robertinho do Recife: A psicodelia nordestina e a revolução permanente do rock brasileiro
Robertinho do Recife revisita seis décadas de invenção sonora
Por Patrícia Marcondes de Barros

Foto do instagram @robertinhoderecife: Robertinho do Recife e Rob Endraus. Rapsódia de Natal, 2025.
Poucos músicos brasileiros atravessaram tantas paisagens sonoras quanto Robertinho do Recife. Guitarrista, compositor, produtor, arranjador e inventor de linguagens musicais, sua trajetória acompanha algumas das transformações mais significativas da música brasileira das últimas décadas. Sua formação musical se dá em um dos períodos mais inventivos da cultura pernambucana, quando artistas passaram a combinar psicodelia, rock, música regional e experimentação sonora sob a influência da contracultura dos anos 1970. Esse ambiente, posteriormente identificado por alguns de seus protagonistas como “Udigrudi”, constituiu uma expressão singular da contracultura brasileira, marcada pela liberdade estética, pela produção independente e pelo diálogo entre diferentes manifestações artísticas.
Nesse contexto, músicos, escritores, artistas visuais, cineastas e performers se aproximaram em torno da criação de novas linguagens e de práticas voltadas à experimentação e à renovação cultural. Ao lado de nomes fundamentais dessa geração, Robertinho integrou um ambiente artístico marcado pela liberdade criativa e pela dissolução de fronteiras rígidas entre gêneros musicais. Sua atuação contribuiu para a consolidação de uma linguagem experimental e híbrida, antecipando debates estéticos e culturais que, décadas depois, seriam retomados por movimentos como o Manguebeat. Das parcerias com Fagner, Elba Ramalho, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho aos projetos autorais, Robertinho construiu uma trajetória pouco comum na música brasileira.
Instrumentista, compositor, produtor e pesquisador, atuou em campos diversos, do heavy metal à música instrumental e às produções de grande porte, combinando virtuosismo técnico e permanente inquietação criativa. Responsável também pela produção de sucessos populares, como os do grupo Yahoo, consolidou uma obra que desafia classificações fáceis e evidencia seu interesse constante pela exploração de novas sonoridades. Essa recusa a enquadramentos atravessa também sua formação, marcada pelo estranhamento que sua guitarra despertava no Recife dos anos 1960, quando o instrumento ainda era frequentemente visto como um símbolo de influência estrangeira e, por muitos, percebido como uma ameaça à cultura nacional. Neste contexto histórico, vale lembrar do episódio da passeata contra as guitarras elétricas realizada em 17 de julho de 1967, em São Paulo, organizada sob o argumento de “defesa das raízes musicais brasileiras”.

"Marcha contra as guitarras elétricas", 17 de julho de 1967, São Paulo. Foto: internet
Enquanto parte do cenário cultural debatia identidade nacional e resistência simbólica, o jovem músico encontrava na guitarra não uma posição ideológica, mas um campo aberto de expressão.
Foi também nesse ambiente que surgiram suas primeiras experiências profissionais. Das bandas de baile à televisão pernambucana, Robertinho acompanhou artistas da Jovem Guarda e participou da intensa movimentação cultural que florescia em Recife.
Ao longo da entrevista, ele revisita encontros decisivos de sua trajetória como sua passagem pelos Estados Unidos ainda muito jovem, as turnês realizadas pelo sul do país, os aprendizados adquiridos ao lado de músicos e produtores norte-americanos e a descoberta de uma identidade artística própria. Recorda também sua aproximação com George Martin, lendário produtor dos Beatles, cuja generosidade e incentivo tiveram papel importante em sua consolidação como produtor musical.
Outro aspecto que emerge com força em seu depoimento é a defesa permanente da experimentação. Para Robertinho, a música só faz sentido quando permanece aberta ao risco, à descoberta e à transformação. Talvez por isso demonstre tão pouca simpatia pelo excesso de saudosismo que, em sua visão, domina parte da indústria cultural contemporânea. Em vez da repetição constante dos sucessos do passado, ele prefere a invenção, a curiosidade e o desafio de criar algo novo.
Essa postura lança luz sobre uma trajetória que desafia classificações fáceis. Ao longo de mais de cinco décadas, Robertinho do Recife transitou com a mesma desenvoltura pela psicodelia nordestina, música popular brasileira, heavy metal, música infantil e produção de grandes sucessos populares. Longe de buscar coerência em uma identidade estável ou em uma filiação estética exclusiva, sua obra parece movida por outro princípio: a disposição para compreender a lógica interna de cada linguagem e explorar suas possibilidades expressivas. Nesse sentido, sua trajetória não se organiza pela fidelidade a um gênero, mas pela curiosidade diante da própria música. Como sintetiza em um dos momentos mais reveladores desta entrevista: “Eu nunca toquei rótulos, eu toquei música.”
Entre memórias, reflexões e histórias pouco conhecidas, Robertinho do Recife fala sobre contracultura, mercado fonográfico, criatividade, tecnologia, liberdade artística e futuro. E, acima de tudo, reafirma a convicção de que a música continua sendo um território de encontros, invenção e permanente reinvenção.
LSE “O Laboratório de Sons Estranhos”

Foto: Facebook Robertinho De Recife
Patrícia - Robertinho, você atravessou diferentes momentos da música brasileira, da psicodelia pernambucana ao rock, da MPB ao heavy metal. Como começou essa relação com a música?
Robertinho - Eu comecei a tocar em 1964, num período muito conturbado da história do Brasil. Recife foi uma cidade profundamente afetada pela ditadura e pelas tensões políticas daquele momento. Muitos dos meus amigos participavam de movimentos estudantis e estavam diretamente envolvidos nas discussões que aconteciam naquela época. E eu apareci tocando guitarra. Pode parecer simples hoje, mas naquele contexto a guitarra era um instrumento bastante estranho dentro do universo musical que predominava no Nordeste. O que se ouvia eram forrós, boleros, frevos e os artistas que faziam sucesso naquele período. A Jovem Guarda ainda estava surgindo e, como Recife era muito distante dos grandes centros da indústria cultural, muita coisa demorava a chegar até nós. Então eu me vi numa situação curiosa: tocava um instrumento que muita gente associava à cultura americana justamente num ambiente em que existiam fortes debates sobre identidade cultural, política e influência estrangeira. Lembro que muitas vezes fui questionado por amigos e pessoas próximas. Alguns viam a guitarra como um símbolo da cultura americana e olhavam para aquilo com desconfiança. Mas, para mim, a guitarra nunca foi uma questão ideológica, era simplesmente um instrumento que me encantava. Eu amava aquele som! Talvez por isso eu tenha acabado me destacando tão cedo. Naquele tempo havia poucas pessoas tocando guitarra em Recife da forma como eu tocava. Com apenas doze anos, eu já estava tocando ao lado de músicos muito mais velhos e experientes. Mas existe uma coisa importante: embora eu estivesse apaixonado pela guitarra e atento ao que acontecia no mundo, eu nunca abandonei as minhas referências nordestinas. Pelo contrário. O frevo, o maracatu, as bandas de pífano e toda a riqueza musical da região foram incorporados à minha maneira de entender e fazer música.
O que aconteceu foi que eu absorvi essas influências de uma forma diferente. Eu nunca fui aquele artista que procurava representar o Nordeste através de uma estética regionalista mais tradicional. Nunca fui o sujeito do chapéu de couro e do gibão. Sempre respeitei profundamente essa cultura, mas ela não correspondia exatamente à minha vivência pessoal. Eu sempre fui um cara urbano. Nasci e cresci na cidade. Nunca vivi no sertão, nunca fui vaqueiro, nunca tive essa experiência direta do universo rural. Portanto, a minha visão do Nordeste era necessariamente outra. Isso não significa que eu ignorasse o que estava ao meu redor. Muito pelo contrário. Eu observava tudo aquilo e incorporava essas referências ao meu trabalho. Mas também mantinha os olhos voltados para o mundo, para as transformações musicais e culturais que estavam acontecendo além das fronteiras da minha cidade e do meu país. Acho que foi justamente dessa combinação que nasceu a minha identidade musical. Eu consegui unir as influências nordestinas que faziam parte da minha formação com uma visão mais cosmopolita e contemporânea da música. Foi dessa fusão que surgiram muitas das coisas que fiz ao longo da minha carreira.
Patrícia - Ainda sobre esse período de intensa efervescência cultural, quais pessoas, encontros, leituras, descobertas ou experiências foram mais importantes para a construção da sua identidade artística?
Robertinho - Primeiramente, fui músico de bandas de baile, participando de diversos grupos da cena pernambucana. Mais tarde, comecei também a montar minhas próprias bandas e a integrar projetos que ganharam certo destaque na época. Foi nesse contexto que surgiu a TV Jornal do Commercio (1960), a primeira emissora de televisão de Recife. A banda da qual fazia parte, Os Moderados, era responsável por acompanhar muitos dos artistas que vinham do Sul para se apresentar na cidade. Assim, tive a oportunidade de tocar ao lado de nomes como Wanderléa, Rosemary, Jerry Adriani, Wanderley Cardoso e vários outros artistas ligados ao universo da Jovem Guarda, que naquele momento dominava o cenário musical brasileiro. Posteriormente, participei de movimentos mais experimentais. Havia o LSE sigla de Laboratório de Sons Estranhos que era um projeto bastante inovador para a época, baseado em composições próprias e em experiências artísticas que se aproximavam dos happenings. Realizávamos apresentações que misturavam música, performance e artes visuais, em um ambiente de intensa efervescência cultural. Esse movimento reunia escritores, pintores, artistas plásticos, dançarinos e músicos, formando uma cena que, de certa forma, antecipava o espírito que décadas depois seria associado ao Manguebeat. Era o Udigrudi recifense em plena atividade. Inclusive, o jornalista José Teles registrou esse período em seu livro sobre a cena underground de Pernambuco (“Do Frevo ao Mangue Beat").
Foi nesse ambiente que surgiram e circularam artistas importantes, entre eles Zé Ramalho. Naquele período, ele gravou com Lula Côrtes e com Alceu Valença, enquanto eu participei de diversos projetos ligados a essa geração. Gravei guitarras em trabalhos de Lula Côrtes, incluindo registros históricos como o álbum Paêbirú (1975), além de outras produções realizadas pela gravadora Rozenblit, em Recife, ainda na era do vinil.
Todas essas experiências foram fundamentais para minha formação artística. Havia uma necessidade muito grande de criar algo genuinamente nosso, de desenvolver uma linguagem própria. Buscávamos a modernidade e o diálogo com as tendências contemporâneas, mas sem abandonar nossas raízes nordestinas. A ideia era justamente unir essas influências tradicionais a uma sonoridade mais atual e universal.

Imagem da fachada da extinta Rozenblit, que era localizada na Estrada dos Remédios, no bairro de Afogados. Foto: Jaqueline Maia/DP/D.A Press (internet)
O Presente da Música
Patrícia -Você sempre transitou entre diferentes universos musicais, da música regional ao rock, da MPB à música instrumental. O que você tem ouvido atualmente? Há artistas, discos ou movimentos contemporâneos que te despertam?
Robertinho - Andei realmente por muitos estilos. O que acontece é que, como músico, convivi e trabalhei com muitos artistas, e cada um tinha sua linguagem, sua onda, seu jeito de fazer música. Muita gente pensa assim: “Mas ele não tem um estilo definido, ele faz um monte de coisas diferentes”. Claro que faço. Porque para mim, a música sempre foi uma questão de química. Com cada pessoa com quem me relaciono musicalmente, procuro entrar no universo dela. Vou me adaptar àquela linguagem, tocar para aquela pessoa. Quando estou com Zé Ramalho, eu toco com Zé Ramalho, o que é completamente diferente de tocar com Fagner. Quando trabalho com Elba Ramalho, embora também exista essa raiz nordestina, a abordagem já é outra. E não apenas como guitarrista, porque em muitos momentos também atuei como produtor. O mesmo acontece com Geraldo Azevedo. Se você ouvir a guitarra que faço em “Táxi Lunar”, por exemplo, ela é muito diferente da sonoridade de “Revelação”, que gravei com Fagner. Cada artista tem um espírito próprio. Acho que meu trabalho sempre foi captar esse espírito, entender o que a pessoa está sugerindo artisticamente e desenvolver aquilo da melhor forma possível. Nunca fiquei preocupado em mostrar o tempo todo que era eu tocando. Eu sou eu de qualquer maneira. Minha identidade aparece naturalmente. Você também me perguntou sobre o que tenho ouvido atualmente e se existem artistas contemporâneos que me despertam interesse. Como eu disse, sou muito eclético. Ouço de tudo. E discordo completamente dessa ideia de que só no passado se fazia boa música. Tem muita gente talentosa produzindo hoje. O que existe é um problema que sempre critiquei: esse excesso de saudosismo, é daí que vêm os flashbacks, as turnês de reencontro, essa obsessão pelo passado. Parece que ninguém quer mais correr o risco de ouvir algo novo. No meu tempo, as pessoas iam aos shows sem saber exatamente o que iam encontrar. Havia curiosidade. Hoje, muita gente compra ingresso querendo ouvir exatamente as mesmas músicas de sempre, eu não gosto disso. É como assistir ao mesmo filme repetidas vezes. Você pode gostar muito de um ator, de uma história, mas chega uma hora em que precisa ver algo novo. Com a música acontece a mesma coisa. Por isso, estou sempre interessado em descobrir artistas, sonoridades e propostas diferentes. Muitas vezes dizem que sou avesso a flashbacks, e é verdade. Não tenho muito entusiasmo quando anunciam que determinada banda voltou para tocar exatamente o mesmo repertório de décadas atrás. Eu sempre penso: “Tudo bem, mas o que vocês têm de novo para mostrar?” E o curioso é que muitos desses artistas têm, sim, coisas novas a dizer. O problema é que existe um sistema que privilegia apenas aquilo que já foi aprovado pelo mercado. Vende-se com mais facilidade aquilo que as pessoas já conhecem. Então, repete-se o sucesso, repete-se a fórmula, repete-se o repertório. A própria internet, de certa forma, reproduz esse mecanismo. Muitas playlists acabam reforçando sempre os mesmos nomes e as mesmas músicas. É uma lógica parecida com a das antigas rádios, quando determinados repertórios eram empurrados ao público porque interessavam às gravadoras. Isso me deixa triste. Foi, inclusive, uma das razões pelas quais me afastei da carreira artística convencional. Eu não aguentava mais passar anos tocando as mesmas músicas, repetindo o mesmo espetáculo, contando a mesma história. Para mim, isso é extremamente maçante. O que sempre me moveu foi a criatividade. Gosto de experimentar, descobrir caminhos, contar histórias novas. É isso que me interessa na arte. A possibilidade permanente de criar algo que ainda não existia.

Foto: instagram @robertinhoderecife
METALMANIA
Patrícia - Durante os anos 1980, você esteve muito próximo da cena internacional do hard rock e do heavy metal, dividindo palco com bandas como o Quiet Riot, Deep Purple, Judas Priest e Accept, entre outros. Como surgiu sua identificação com o heavy metal e o que mais o atraí nesse universo musical?
Robertinho - Bem, esse período que você cita, em que eu transitava pela cena do rock, hard rock e heavy metal, está ligado à Metal Mania. A Metal Mania foi uma diversão enorme para mim. Na verdade, eu sempre fui pulando de galho em galho. E é curioso porque, antes dessa fase, o galho em que eu estava era justamente a música infantil. Eu costumo dizer que fui um dos precursores da música infantil no Brasil. O primeiro grande sucesso infantil não foi da Xuxa, nem da Angélica, da Mara Maravilha ou do Trem da Alegria, foi O Elefante (1981). Naquela época, praticamente a única referência infantil que existia era o Palhaço Carequinha, e ainda em discos de 45 rotações. Quando surgiu a Metal Mania, tivemos também a oportunidade de ser pioneiros em outra área. Fomos uma das primeiras bandas brasileiras a montar uma estrutura profissional para abrir shows de grandes grupos internacionais de heavy metal. Muita gente daquela geração comenta isso até hoje. Existem depoimentos de músicos importantes dizendo que assistiam aos shows da Metal Mania. O próprio Andreas Kisser já falou sobre isso. Muitos músicos que continuam em atividade contam que nos viram tocar e que aquilo teve alguma influência sobre eles. Eu me divertia muito naquela época, só que com o passar do tempo, algumas coisas começaram a me incomodar. O heavy metal para mim era diversão, música, energia. Mas uma parte da cena começou a ficar muito fechada, muito sectária, quase como uma religião. Havia muita raiva, muito radicalismo, muitas regras. Era aquele discurso de que metal tinha que ser de um jeito específico, que tinha que ser cantado em inglês, que tinha que seguir determinados códigos. E eu nunca fui assim, não gosto de dogmas, não gosto dessa história de coisa maldita, obscura ou de seguir uma cartilha. Eu sempre digo: não sou maldito, sou bendito! Mas, independentemente disso, foi uma fase maravilhosa. Abrimos shows para bandas importantes, viajamos muito e fizemos apresentações memoráveis. O que mais me deixa feliz ao lembrar daquele período é que as pessoas que assistiam aos nossos shows quase sempre saíam impressionadas com a nossa performance. E isso, às vezes, criava situações curiosas nos bastidores. Houve ocasiões em que causamos um impacto tão grande como banda de abertura que acabamos incomodando algumas das atrações principais. Em certos eventos, chegaram até a aumentar o intervalo depois da nossa apresentação para que a banda principal não precisasse entrar logo em seguida. Alguns artistas não gostavam muito disso. Houve casos de gente reclamando, pedindo para diminuir o som ou tentando esfriar a reação do público, porque, no fundo, eles esperavam que a banda de abertura fosse apenas um detalhe do evento, algo para preencher o tempo antes da atração principal. Mas a Metal Mania não era isso. Quando entrávamos no palco, entrávamos para valer! E muitas vezes o público reagia de uma forma tão intensa que acabava mudando completamente o clima da noite. Essa foi a experiência que vivi naquela época. Uma fase de muito aprendizado, muita diversão e, principalmente, de enorme liberdade musical.

Foto, instagram @robertinhoderecife: Robertinho do Recife com o maestro George Martin, produtor dos Beatles. 1997.
Conexões: Robertinho do Recife & do Mundo
Patrícia -Você chegou a tocar com a banda norte-americana Watch Pocket. Como aconteceu esse encontro e o que a experiência de atuar diretamente com músicos estrangeiros acrescentou à sua visão artística?
Robertinho - Essa experiência nos Estados Unidos foi muito importante para mim. Na época, eu tocava com uma banda formada por filhos de missionários americanos que viviam no Brasil. Eles levaram algumas fitas minhas tocando para os Estados Unidos e, por causa disso, fui convidado para fazer uma audição com uma banda de country. Eu tinha apenas 17 anos e isso foi em 1970. Quando cheguei lá, percebi rapidamente que não tinha muito a ver com aquele universo. Respeitava o country, mas o que eu queria mesmo era tocar rock. Naquela época eu já gostava de um som mais pesado, mais ligado ao rock que estava surgindo naquele período. Acabei não me adaptando àquela primeira banda. Mas, pouco tempo depois, fui chamado para tocar em um parque e, durante essa apresentação, um músico me viu tocando. Era o baixista do Watch Pocket. Ele me convidou para entrar na banda e eu aceitei. A partir daí começou uma fase muito interessante da minha vida. O Watch Pocket era uma banda bastante conhecida na região e fizemos muitas apresentações e uma longa turnê pelos Estados Unidos, de costa a costa. Toquei em inúmeros shows e acabei ficando relativamente conhecido, principalmente no sul do país, em estados como Tennessee e Mississippi. Foi também um período de muito aprendizado que tive contato com músicos e produtores extraordinários. Um deles foi Steve Cropper, guitarrista e produtor lendário, que trabalhou com grandes nomes da música americana. Ele acabou se tornando nosso produtor e me ensinou muitas coisas. Eu aprendia tanto ouvindo seus conselhos quanto observando seu trabalho no estúdio, além disso, conheci muita gente interessante. Cheguei a tocar em programas de televisão no Mississippi onde também se apresentava B.B. King e acabamos criando uma pequena amizade. Assisti a vários shows dele e aprendi muito observando sua maneira de tocar e de se relacionar com a música. Tudo isso me acrescentou enormemente, não apenas como músico, mas também como pessoa. Acho que foi uma experiência que me ajudou a entender melhor quem eu era artisticamente. Uma das coisas mais importantes que aprendi naquele período foi justamente o valor da minha identidade. Nos Estados Unidos, as pessoas não ficavam tentando me comparar com alguém. Aqui no Brasil, às vezes aparecia alguém dizendo que eu lembrava este ou aquele guitarrista. Lá não. Lá os músicos olhavam para mim e diziam simplesmente: “Você é você”. E isso foi muito marcante para mim. Eles me fizeram perceber que eu não precisava abrir mão daquilo que me tornava diferente. Pelo contrário, era justamente essa diferença que fazia sentido. Acho que foi uma das maiores lições que trouxe daquela experiência.
Patrícia - Robertinho, seu encontro com George Martin, produtor responsável por alguns dos discos mais importantes dos Beatles, foi uma experiência rara na trajetória de um músico brasileiro. Como surgiu essa oportunidade e quais lembranças, aprendizados ou impressões daquele convívio mais marcaram você?
Robertinho - Bem, a oportunidade de tocar com George Martin surgiu por causa de uma música que eu sempre adorei: Pepperland. Ela é uma das raras faixas ligadas ao universo dos Beatles que não foi composta nem por Lennon nem por McCartney. É uma composição instrumental do próprio George Martin, presente na trilha de Yellow Submarine. Na época, eu estava gravando o projeto Rapsódia Rock, um disco em que reinterpretava grandes clássicos utilizando orquestra. Resolvi gravar Pepperland, mas a gravadora, que era a EMI-Odeon, a mesma dos Beatles, me avisou que a autorização seria muito difícil. Eles disseram: “Vamos tentar, mas normalmente esse tipo de liberação não acontece”. E foi exatamente o que aconteceu. O pedido foi enviado para a Inglaterra e a resposta inicial foi negativa. Nessa mesma época, o jornalista Marcelo Fróes estava preparando uma matéria para um lançamento comemorativo dos 30 anos dos Beatles e viajaria para entrevistar George Martin. Aproveitei a oportunidade e enviei uma gravação minha da música, junto com um bilhete dizendo o quanto admirava o trabalho dele e que meu sonho era um dia tocar aquela composição com ele regendo uma orquestra aqui no Brasil. Quando Marcelo mostrou a gravação, George Martin ouviu e imediatamente autorizou o uso da música. E mais do que isso: mandou um recado dizendo que aceitava o convite. A partir daí começou uma verdadeira corrida para transformar aquele sonho em realidade. Depois de muitas conversas e negociações, conseguimos viabilizar o projeto por meio do Projeto Aquarius. Montamos uma grande apresentação com orquestra sinfônica brasileira, banda e a participação de George Martin. Foi uma experiência inesquecível. Uma das lembranças mais marcantes aconteceu quando ele me apresentou a outras pessoas. Ele costumava dizer: “Este é o guitarrista da minha orquestra”. Eu ficava extremamente lisonjeado. Afinal, estava ouvindo aquilo justamente de George Martin. Era como se ele estivesse me adotando musicalmente por aqueles dias. Lembro também de situações no estúdio em que ele me apresentava para músicos e artistas que estavam por lá. Sempre fazia questão de falar do meu trabalho e me tratar com enorme generosidade. Isso me marcou muito. Mas talvez o mais importante de tudo tenham sido as conversas. Eu aproveitava cada oportunidade para ouvi-lo falar sobre música, gravação e produção. Mostrei alguns trabalhos que eu já vinha produzindo e ele foi muito generoso nas avaliações. Em determinado momento, me disse que eu tinha talento para a produção musical e que deveria investir mais nessa área. Aquilo teve um peso enorme para mim. Eu já produzia algumas coisas, mas ouvir esse incentivo de alguém com a experiência e a visão de George Martin me deu confiança para assumir definitivamente esse papel. Por isso, quando penso na minha trajetória como produtor, considero que devo muito a ele. Guardo até hoje as conversas, os conselhos e os ensinamentos que recebi. Foram lições que me acompanharam por toda a vida e que continuam presentes em tudo o que faço como músico e produtor.

Foto: Capa do disco Yahoo (1989)
Patrícia -Robertinho, nos anos 1980 você participou de projetos muito distintos já comentados, que vão do sucesso popular (banda Yahoo entre outros) ao heavy metal. Como enxerga essa diversidade na sua trajetória musical?
Robertinho - Então, é aquela coisa que eu já falei: existe uma química entre mim e as pessoas com quem estou trabalhando naquele momento. O estilo acaba surgindo daí. Eu nunca fui um músico preconceituoso. Eu toco música. Não fico pensando: “Ah, isso não tem nada a ver comigo”, ou “isso é brega”, “isso é de direita”, “isso é de esquerda”, “isso é americano”, “isso é indiano”. Eu não consigo enxergar as coisas dessa forma. Da mesma maneira que procuro enxergar as pessoas. A pessoa é legal? Então é legal. A pessoa não é? Aí a convivência fica difícil. Para mim é simples assim. Se a música é boa, se existe química, se eu estou me divertindo e aquilo está me estimulando criativamente, eu faço. Não importa o rótulo. Sempre foi assim. Muita gente fala do Yahoo como se fosse uma espécie de desvio na minha trajetória, mas não foi. O Yahoo foi uma criação minha. Eu quis fazer uma banda que chegasse ao topo das paradas de sucesso. Era um desafio e conseguimos. Ficamos cerca de seis meses em primeiro lugar com Mordida de Amor(1998) e depois emplacamos outras músicas também nas paradas. Claro que Mordida de Amor acabou se tornando um fenômeno maior do que todas as outras, mas isso faz parte da história. O que aconteceu é que, em determinado momento, eu também já estava cansado daquela situação. Houve uma época em que me senti muito perseguido profissionalmente. Não sei exatamente o porquê. Talvez porque algumas pessoas achassem que eu estava ocupando espaço demais. Era como se pensassem: “Se deixar esse cara seguir, ele vai dominar tudo. Então vamos dificultar a vida dele”. E isso vinha de vários lados. Artistas, jornalistas, produtores, pessoas do próprio meio musical. Existia uma resistência que eu percebia claramente. Mas tudo bem. Com o tempo, aprendi a lidar com isso. Entendi o jogo e segui em frente. Também sei que, quando falo dessas coisas, pode parecer que estou me achando demais. Mas não é isso. Estou apenas relatando o que vivi. Porque existe uma situação curiosa: quando você apanha durante anos e resolve se defender, muita gente diz que você está sendo arrogante. Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra. Eu não estou me colocando acima de ninguém. Estou apenas reconhecendo a minha trajetória, o meu trabalho e as dificuldades que enfrentei ao longo do caminho. No fim das contas, está tudo certo. Eu continuo vendo a música da mesma forma que sempre vi: sem preconceitos, sem fronteiras e sem rótulos. O que importa para mim é a química, a criatividade e a verdade que existe naquele momento.

Foto: Reprodução/YouTube
Parceria com André Matos
Patrícia -Se você pudesse voltar aos anos 1980 e escolher uma banda ou artista internacional com quem gostaria de ter gravado ou excursionado, quem seria e por quê?
Robertinho - Olha, eu tive várias oportunidades ao longo da vida. Houve momentos em que fui convidado para participar de projetos e bandas lá fora, mas, por razões pessoais ou porque eu não estava no melhor momento da minha vida para tomar determinadas decisões, essas coisas acabaram não acontecendo. Mas, sinceramente, quando penso nisso hoje, não fico imaginando muito com quais artistas internacionais eu gostaria de ter tocado. Existem muitos músicos que admiro, claro, mas a lembrança que mais me marca não está lá fora. Está aqui. Teve um trabalho que eu estava começando a desenvolver com o André Matos. O André era um grande cantor, um artista extraordinário e uma pessoa por quem eu tinha enorme admiração. Nós estávamos conversando, planejando projetos e construindo ideias juntos quando recebi a notícia de sua morte. Essa é uma das coisas que realmente lamento não ter conseguido realizar. Nós tínhamos muitos planos. Existiam projetos que pretendíamos gravar, desenvolver e levar para a estrada. Havia uma sintonia muito boa entre nós e uma vontade enorme de criar coisas novas. Por isso, quando penso em oportunidades que ficaram pelo caminho, é desse trabalho que me lembro. Mais do que qualquer parceria internacional que eu pudesse ter feito, sinto falta daquilo que eu e o André poderíamos ter construído juntos. É uma tristeza que carrego até hoje. Ao mesmo tempo, guardo com muito carinho a memória dele, do talento que tinha e das conversas que compartilhamos. Sempre vou me lembrar não apenas do que fizemos, mas principalmente de tudo aquilo que ainda poderíamos ter feito.
Foto do instagram @robertinhoderecife: Robertinho do Recife e Rob Endraus.
Patrícia -Depois de uma trajetória tão rica e diversa, quais são os projetos que mais o entusiasmam hoje? Há novidades ou planos que você gostaria de compartilhar?
Robertinho - Um dos projetos que mais me entusiasmou recentemente foi um trabalho que fiz no ano passado. Tudo começou quando o pessoal da Universal Music me ligou perguntando se eu não tinha vontade de gravar um disco de Natal. Eu brinquei com eles: “Com essa barba de Papai Noel, claro que tenho!”. Mas também disse que, se fosse fazer, gostaria de criar algo diferente. Isso aconteceu já no final do ano, por volta de novembro. Eles imaginavam que o projeto ficaria para o Natal seguinte, porque o tempo era curto. Mas eu respondi: “Não, vamos fazer agora”. Ao longo da minha vida, participei de muitas cantatas de Natal e tive bastante contato com o repertório sacro. Inclusive, costumo dizer que meu universo está mais ligado à música sacra do que propriamente à música clássica. Claro que existe uma enorme interseção entre as duas coisas. Você encontra compositores como Bach, Beethoven, Mendelssohn e tantos outros que fazem parte desse repertório. Quando a proposta surgiu, percebi que eu já tinha muitas ideias guardadas. Já conhecia o repertório, sabia os caminhos que queria seguir e comecei a desenvolver o projeto. Mas havia outra coisa que eu queria muito: fazer esse trabalho com meu filho. Eu acompanho de perto o trabalho dele e gosto muito do que ele faz. Ele tem uma visão moderna, vem de uma geração diferente da minha, trabalha com elementos eletrônicos e traz ideias muito interessantes. Apesar disso, também conhece bem o universo musical em que cresceu. Então eu o convidei para participar e ele topou imediatamente. Foi uma experiência maravilhosa. Em apenas quinze dias conseguimos desenvolver e gravar o álbum Rapsody de Natal, lançado pela Universal Music e disponível nas plataformas digitais. E esse projeto acabou despertando ainda mais meu interesse por um repertório que sempre esteve presente na minha vida. Tenho várias gravações e arranjos guardados, incluindo versões de obras como Jesus, Alegria dos Homens, de Bach, a Nona Sinfonia e também a Ave Maria, de Schubert. São trabalhos que pretendo revisitar e compartilhar aos poucos. Outra novidade importante é que estou retomando minha presença nas redes sociais. Durante muitos anos fiquei afastado porque meu canal oficial no YouTube foi hackeado. A situação acabou gerando vários problemas e, por muito tempo, não consegui recuperar o controle da plataforma. Foram quase seis anos nessa batalha. Felizmente, com o apoio da Universal Music, conseguimos comprovar a autoria do canal e recuperar tudo. Então estou voltando aos poucos, reorganizando o material e retomando o contato com o público. Antes desse problema, eu tinha mais de dois milhões de seguidores no YouTube. Agora estou reconstruindo esse espaço e voltando a publicar conteúdos, músicas, gravações e projetos novos. Quero agradecer muito pela oportunidade desta conversa. Foi um prazer compartilhar um pouco dessa trajetória. E para quem quiser acompanhar meu trabalho, estou de volta nas redes sociais e no YouTube:
YouTube: https://www.youtube.com/@robertinhodorecifeoficial
Instagram: https://www.instagram.com/robertinhodorecifeoficial
Facebook: https://www.facebook.com/robertinhodorecife
Referências, Discografia e Links da entrevista
Documentário
ROBERTINHO DE RECIFE? ROBERTINHO DO MUNDO!
(2020). Série documental (10 episódios). Direção: Claudia André Produção: Music Box Brazil.
Livros e Pesquisas

TELES, José. Do frevo ao manguebeat. São Paulo: Editora 34, 2000.
Obra fundamental para compreender a contracultura pernambucana, a cena Udigrudi e os movimentos musicais que antecederam o Manguebeat.
Álbuns e Projetos
Paêbirú (1975) — Lula Côrtes & Zé Ramalho
Metal Mania (1984)
Rapsódia Rock
Rapsody de Natal (Universal Music)
“Pepperland” (George Martin)
“O Elefante” (Robertinho do Recife e Emilinha)

“Táxi Lunar” (Geraldo Azevedo)
“Revelação” (Fagner)
Agradecimentos
Ao músico Robertinho do Recife pela generosidade em conceder esta entrevista, compartilhando suas memórias, reflexões e experiências ao longo de uma trajetória que marcou a história da música brasileira.
Agradecemos, igualmente, ao músico Milton Romero, cuja colaboração foi fundamental para a realização deste encontro e para a concretização desta entrevista.
Nosso reconhecimento a ambos por contribuírem para a preservação e a difusão da memória cultural brasileira.
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