Robertinho do Recife: A psicodelia nordestina e a revolução permanente do rock brasileiro
Entrevista concedida a professora Patrícia Marcondes de Barros, historiadora e pesquisadora musical.
Robertinho do Recife revisita seis décadas de invenção sonora, da psicodelia pernambucana ao rock, defendendo a liberdade criativa acima de qualquer fronteira estética.
Poucos músicos brasileiros atravessaram tantas paisagens sonoras quanto Robertinho do Recife. Guitarrista, compositor, produtor, arranjador e inventor de linguagens musicais, sua trajetória acompanha algumas das transformações mais significativas da música brasileira das últimas décadas.
Sua formação musical se dá em um dos períodos mais inventivos da cultura pernambucana, quando artistas passaram a combinar psicodelia, rock, música regional e experimentação sonora sob a influência da contracultura dos anos 1970. Esse ambiente, posteriormente identificado por alguns de seus protagonistas como “Udigrudi”, constituiu uma expressão singular da contracultura brasileira, marcada pela liberdade estética, pela produção independente e pelo diálogo entre diferentes manifestações artísticas. Nesse contexto, músicos, escritores, artistas visuais, cineastas e performers se aproximaram em torno da criação de novas linguagens e de práticas voltadas à experimentação e à renovação cultural.
Ao lado de nomes fundamentais dessa geração, Robertinho integrou um ambiente artístico marcado pela liberdade criativa e pela dissolução de fronteiras rígidas entre gêneros musicais. Sua atuação contribuiu para a consolidação de uma linguagem experimental e híbrida, antecipando debates estéticos e culturais que, décadas depois, seriam retomados por movimentos como o Manguebeat.
Das parcerias com Fagner, Elba Ramalho, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho aos projetos autorais, Robertinho construiu uma trajetória pouco comum na música brasileira. Instrumentista, compositor, produtor e pesquisador, atuou em campos diversos, do heavy metal à música instrumental e às produções de grande porte, combinando virtuosismo técnico e permanente inquietação criativa. Responsável também pela produção de sucessos populares, como os do grupo Yahoo, consolidou uma obra que desafia classificações fáceis e evidencia seu interesse constante pela exploração de novas sonoridades. Essa recusa a enquadramentos atravessa também sua formação, marcada pelo estranhamento que sua guitarra despertava no Recife dos anos 1960, quando o instrumento ainda era frequentemente visto como um símbolo de influência estrangeira e, por muitos, percebido como uma ameaça à cultura nacional. Neste contexto histórico, vale lembrar do episódio da passeata contra as guitarras elétricas realizada em 17 de julho de 1967, em São Paulo, organizada sob o argumento de “defesa das raízes musicais brasileiras”. Enquanto parte do cenário cultural debatia identidade nacional e resistência simbólica, o jovem músico encontrava na guitarra não uma posição ideológica, mas um campo aberto de expressão.
Foi também nesse ambiente que surgiram suas primeiras experiências profissionais. Das bandas de baile à televisão pernambucana, Robertinho acompanhou artistas da Jovem Guarda e participou da intensa movimentação cultural que florescia em Recife.
Ao longo da entrevista, ele revisita encontros decisivos de sua trajetória como sua passagem pelos Estados Unidos ainda muito jovem, as turnês realizadas pelo sul do país, os aprendizados adquiridos ao lado de músicos e produtores norte-americanos e a descoberta de uma identidade artística própria. Recorda também sua aproximação com George Martin, lendário produtor dos Beatles, cuja generosidade e incentivo tiveram papel importante em sua consolidação como produtor musical.
Outro aspecto que emerge com força em seu depoimento é a defesa permanente da experimentação. Para Robertinho, a música só faz sentido quando permanece aberta ao risco, à descoberta e à transformação. Talvez por isso demonstre tão pouca simpatia pelo excesso de saudosismo que, em sua visão, domina parte da indústria cultural contemporânea. Em vez da repetição constante dos sucessos do passado, ele prefere a invenção, a curiosidade e o desafio de criar algo novo.
Essa postura lança luz sobre uma trajetória que desafia classificações fáceis. Ao longo de mais de cinco décadas, Robertinho do Recife transitou com a mesma desenvoltura pela psicodelia nordestina, música popular brasileira, heavy metal, música infantil e produção de grandes sucessos populares. Longe de buscar coerência em uma identidade estável ou em uma filiação estética exclusiva, sua obra parece movida por outro princípio: a disposição para compreender a lógica interna de cada linguagem e explorar suas possibilidades expressivas. Nesse sentido, sua trajetória não se organiza pela fidelidade a um gênero, mas pela curiosidade diante da própria música. Como sintetiza em um dos momentos mais reveladores desta entrevista: “Eu nunca toquei rótulos, eu toquei música.”
Entre memórias, reflexões e histórias pouco conhecidas, Robertinho do Recife fala sobre contracultura, mercado fonográfico, criatividade, tecnologia, liberdade artística e futuro. E, acima de tudo, reafirma a convicção de que a música continua sendo um território de encontros, invenção e permanente reinvenção.
Robertinho, você atravessou diferentes momentos da música brasileira, da psicodelia pernambucana ao rock, da MPB ao heavy metal. Como começou essa relação com a música?
Robertinho - Eu comecei a tocar em 1964, num período muito conturbado da história do Brasil. Recife foi uma cidade profundamente afetada pela ditadura e pelas tensões políticas daquele momento. Muitos dos meus amigos participavam de movimentos estudantis e estavam diretamente envolvidos nas discussões que aconteciam naquela época.
E eu apareci tocando guitarra.
Pode parecer simples hoje, mas naquele contexto a guitarra era um instrumento bastante estranho dentro do universo musical que predominava no Nordeste. O que se ouvia eram forrós, boleros, frevos e os artistas que faziam sucesso naquele período. A Jovem Guarda ainda estava surgindo e, como Recife era muito distante dos grandes centros da indústria cultural, muita coisa demorava a chegar até nós. Então eu me vi numa situação curiosa: tocava um instrumento que muita gente associava à cultura americana justamente num ambiente em que existiam fortes debates sobre identidade cultural, política e influência estrangeira. Lembro que muitas vezes fui questionado por amigos e pessoas próximas. Alguns viam a guitarra como um símbolo da cultura americana e olhavam para aquilo com desconfiança. Mas, para mim, a guitarra nunca foi uma questão ideológica, era simplesmente um instrumento que me encantava. Eu amava aquele som! Talvez por isso eu tenha acabado me destacando tão cedo. Naquele tempo havia poucas pessoas tocando guitarra em Recife da forma como eu tocava. Com apenas doze anos, eu já estava tocando ao lado de músicos muito mais velhos e experientes. Mas existe uma coisa importante: embora eu estivesse apaixonado pela guitarra e atento ao que acontecia no mundo, eu nunca abandonei as minhas referências nordestinas. Pelo contrário. O frevo, o maracatu, as bandas de pífano e toda a riqueza musical da região foram incorporados à minha maneira de entender e fazer música.
O que aconteceu foi que eu absorvi essas influências de uma forma diferente. Eu nunca fui aquele artista que procurava representar o Nordeste através de uma estética regionalista mais tradicional. Nunca fui o sujeito do chapéu de couro e do gibão. Sempre respeitei profundamente essa cultura, mas ela não correspondia exatamente à minha vivência pessoal. Eu sempre fui um cara urbano. Nasci e cresci na cidade. Nunca vivi no sertão, nunca fui vaqueiro, nunca tive essa experiência direta do universo rural. Portanto, a minha visão do Nordeste era necessariamente outra. Isso não significa que eu ignorasse o que estava ao meu redor. Muito pelo contrário. Eu observava tudo aquilo e incorporava essas referências ao meu trabalho. Mas também mantinha os olhos voltados para o mundo, para as transformações musicais e culturais que estavam acontecendo além das fronteiras da minha cidade e do meu país. Acho que foi justamente dessa combinação que nasceu a minha identidade musical. Eu consegui unir as influências nordestinas que faziam parte da minha formação com uma visão mais cosmopolita e contemporânea da música. Foi dessa fusão que surgiram muitas das coisas que fiz ao longo da minha carreira.
Ainda sobre esse período de intensa efervescência cultural, quais pessoas, encontros, leituras, descobertas ou experiências foram mais importantes para a construção da sua identidade artística?
Robertinho - Primeiramente, fui músico de bandas de baile, participando de diversos grupos da cena pernambucana. Mais tarde, comecei também a montar minhas próprias bandas e a integrar projetos que ganharam certo destaque na época. Foi nesse contexto que surgiu a TV Jornal do Commercio (1960), a primeira emissora de televisão de Recife. A banda da qual fazia parte, Os Moderados, era responsável por acompanhar muitos dos artistas que vinham do Sul para se apresentar na cidade. Assim, tive a oportunidade de tocar ao lado de nomes como Wanderléa, Rosemary, Jerry Adriani, Wanderley Cardoso e vários outros artistas ligados ao universo da Jovem Guarda, que naquele momento dominava o cenário musical brasileiro. Posteriormente, participei de movimentos mais experimentais. Havia o LSE sigla de Laboratório de Sons Estranhos que era um projeto bastante inovador para a época, baseado em composições próprias e em experiências artísticas que se aproximavam dos happenings. Realizávamos apresentações que misturavam música, performance e artes visuais, em um ambiente de intensa efervescência cultural. Esse movimento reunia escritores, pintores, artistas plásticos, dançarinos e músicos, formando uma cena que, de certa forma, antecipava o espírito que décadas depois seria associado ao Manguebeat. Era o Udigrudi recifense em plena atividade. Inclusive, o jornalista José Teles registrou esse período em seu livro sobre a cena underground de Pernambuco (“Do Frevo ao Mangue Beat").
Foi nesse ambiente que surgiram e circularam artistas importantes, entre eles Zé Ramalho. Naquele período, ele gravou com Lula Côrtes e com Alceu Valença, enquanto eu participei de diversos projetos ligados a essa geração. Gravei guitarras em trabalhos de Lula Côrtes, incluindo registros históricos como o álbum Paêbirú (1975), além de outras produções realizadas pela gravadora Rozenblit, em Recife, ainda na era do vinil.
Todas essas experiências foram fundamentais para minha formação artística. Havia uma necessidade muito grande de criar algo genuinamente nosso, de desenvolver uma linguagem própria. Buscávamos a modernidade e o diálogo com as tendências contemporâneas, mas sem abandonar nossas raízes nordestinas. A ideia era justamente unir essas influências tradicionais a uma sonoridade mais atual e universal.
O Presente da Música
Você sempre transitou entre diferentes universos musicais, da música regional ao rock, da MPB à música instrumental. O que você tem ouvido atualmente? Há artistas, discos ou movimentos contemporâneos que te despertam?
Robertinho - Andei realmente por muitos estilos. O que acontece é que, como músico, convivi e trabalhei com muitos artistas, e cada um tinha sua linguagem, sua onda, seu jeito de fazer música. Muita gente pensa assim: “Mas ele não tem um estilo definido, ele faz um monte de coisas diferentes”. Claro que faço. Porque para mim, a música sempre foi uma questão de química. Com cada pessoa com quem me relaciono musicalmente, procuro entrar no universo dela. Vou me adaptar àquela linguagem, tocar para aquela pessoa. Quando estou com Zé Ramalho, eu toco com Zé Ramalho, o que é completamente diferente de tocar com Fagner. Quando trabalho com Elba Ramalho, embora também exista essa raiz nordestina, a abordagem já é outra. E não apenas como guitarrista, porque em muitos momentos também atuei como produtor. O mesmo acontece com Geraldo Azevedo. Se você ouvir a guitarra que faço em “Táxi Lunar”, por exemplo, ela é muito diferente da sonoridade de “Revelação”, que gravei com Fagner. Cada artista tem um espírito próprio. Acho que meu trabalho sempre foi captar esse espírito, entender o que a pessoa está sugerindo artisticamente e desenvolver aquilo da melhor forma possível. Nunca fiquei preocupado em mostrar o tempo todo que era eu tocando. Eu sou eu de qualquer maneira. Minha identidade aparece naturalmente. Você também me perguntou sobre o que tenho ouvido atualmente e se existem artistas contemporâneos que me despertam interesse. Como eu disse, sou muito eclético. Ouço de tudo. E discordo completamente dessa ideia de que só no passado se fazia boa música. Tem muita gente talentosa produzindo hoje. O que existe é um problema que sempre critiquei: esse excesso de saudosismo, é daí que vêm os flashbacks, as turnês de reencontro, essa obsessão pelo passado. Parece que ninguém quer mais correr o risco de ouvir algo novo. No meu tempo, as pessoas iam aos shows sem saber exatamente o que iam encontrar. Havia curiosidade. Hoje, muita gente compra ingresso querendo ouvir exatamente as mesmas músicas de sempre, eu não gosto disso. É como assistir ao mesmo filme repetidas vezes. Você pode gostar muito de um ator, de uma história, mas chega uma hora em que precisa ver algo novo. Com a música acontece a mesma coisa. Por isso, estou sempre interessado em descobrir artistas, sonoridades e propostas diferentes. Muitas vezes dizem que sou avesso a flashbacks, e é verdade. Não tenho muito entusiasmo quando anunciam que determinada banda voltou para tocar exatamente o mesmo repertório de décadas atrás. Eu sempre penso: “Tudo bem, mas o que vocês têm de novo para mostrar?” E o curioso é que muitos desses artistas têm, sim, coisas novas a dizer. O problema é que existe um sistema que privilegia apenas aquilo que já foi aprovado pelo mercado. Vende-se com mais facilidade aquilo que as pessoas já conhecem. Então, repete-se o sucesso, repete-se a fórmula, repete-se o repertório. A própria internet, de certa forma, reproduz esse mecanismo. Muitas playlists acabam reforçando sempre os mesmos nomes e as mesmas músicas. É uma lógica parecida com a das antigas rádios, quando determinados repertórios eram empurrados ao público porque interessavam às gravadoras. Isso me deixa triste. Foi, inclusive, uma das razões pelas quais me afastei da carreira artística convencional. Eu não aguentava mais passar anos tocando as mesmas músicas, repetindo o mesmo espetáculo, contando a mesma história. Para mim, isso é extremamente maçante. O que sempre me moveu foi a criatividade. Gosto de experimentar, descobrir caminhos, contar histórias novas. É isso que me interessa na arte. A possibilidade permanente de criar algo que ainda não existia.
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